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Domingo XIII do tempo Comum - ano A - 2 de juho de 2017

1 – Jesus pede-nos exclusividade. Como a própria palavra sugere, exclusividade exige exclusão. «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim».

       Rapidamente vamos perceber que a exclusividade de Jesus é inclusiva, ainda que inclua a renúncia. Fazer uma opção é renunciar a outras. Sempre que escolhemos um caminho recusamos todos os outros possíveis. Quando escolhemos alguma pessoa abdicamos das outras. É, por exemplo, assim no matrimónio (cristão). É assim nos grandes amores: ama-se alguém com um amor maior, acima e além de todos os outros amores que possam fazer parte da nossa vida. Amor maior que se torna único no mundo. Quando o amor é sério, autêntico, honesto. É fácil amar muita gente sem amar ninguém em concreto. Mais difícil é amar uma pessoa como única, como amor único, de tal que se está disposto a tudo, disposto até a dar a própria vida. Foi assim que Jesus procedeu connosco. Amou apenas o Pai e amando o Pai amou-nos unicamente a nós! No casal, ama-se com tanto amor que a abertura a uma nova vida se torna (quase) uma exigência, uma consequência natural. O amor é tão vivo que gera vida!

       É assim também no sacerdócio ordenado, um único amor, a Cristo, para entregar a vida a favor de todos.

       Ao escutarmos Jesus ficamos arrepiados. Quem amar mais a mãe e o pai, o filho ou a filha, ou a própria vida não pode segui-l'O! Como? Deixar para trás a família, os amigos, renunciar à própria vida?

 

       2 – Ao longo da Sua vida e de maneira mais clarividente na Sua Paixão e Morte na Cruz, Jesus mostra a Sua grande ligação ao Pai. É uma intimidade de todas as horas, visível nos momentos mais intensos, mais importantes e mais dramáticos. Se a Sua vida é uma oração constante, Jesus reserva tempos específicos para uma maior proximidade com o Deus: antes da vida pública retira-Se em oração para o deserto; antes de escolher os apóstolos passa a noite em oração; antes do processo da Sua morte, retira-Se para o horto das Oliveiras para orar; na Cruz mantém um diálogo vivo com o Pai: Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?! Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito.

        É percetível na vida de Jesus o Amor primeiro e único: o Pai (de todas as horas). Mas é também dessa forma que Ele tem tempo e disponibilidade para as pessoas, sobretudo as mais frágeis, pois não desperdiça nem forças nem tempo com intrigas, com lamentações, com suspeição, com estratégias para Se afirmar ou para assegurar poder ou vantagem sobre os demais.

       Com efeito, a soberania de Deus garante a verdadeira solidariedade entre pessoas. Garante por outro lado a igualdade, a inclusão, a pessoa como "absoluto", isto é, não reduzível a mim nem descartável. Colocar Deus em primeiro lugar evita a instrumentalização e a idolatria. Se o primeiro lugar for ocupado por alguém ou pela nossa vida, entenda-se, os nossos interesses, há um risco provável de instrumentalizarmos as pessoas: importam-nos enquanto nos são úteis, são descartáveis quando não nos servem. Na mesma perspetiva, o auto endeusamento: queremos e assumimo-nos como centro do universo, tudo há de funcionar para nos servir. No inverso, não tendo Deus como Deus, que está acima e além de toda a possessão, mais tarde ou mais cedo lá colocaremos alguém ou alguma coisa, preenchendo dessa forma o lugar de Deus.

 

 

        3 – A prioridade e a precedência de Deus liberta-nos da ansiedade e da perda definitiva, pois Ele nos garante a vida. Aqueles que perdemos, pela vida, Ele os guarda na eternidade. Reconhecermos que não somos deuses, ou que alguém ou alguma coisa o é, faz-nos relativizar as perdas e os insucessos, mas também que o céu não é definitivo na vida histórica, pelo que estamos a caminho. Se acharmos que somos deuses então não poderemos repousar nem equilibrar o nosso cérebro, temos que resolver tudo. Se colocarmos essa esperança em alguém vamos exigir-lhe que resolva tudo o que queremos.

       Afinal o desafio de Jesus não menospreza, de todo, a família ou a vida como dom e tarefa, mas recoloca tudo no seu lugar, a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Jesus não nos quer por metade ou compartimentalizados: agora somos pais, logo filhos, hoje trabalhadores, amanhã, espectadores; agora é tempo de trabalhar, logo de descansar, agora de rezar, logo é para divertir. Quer-nos por inteiro. Jesus dá-Se por inteiro ao Pai. É nessa medida que Se entrega ao Pai por nós e por amor nos eleva para Deus.

       Em tempos, num velório, ouvi uma pequena história de vida. A filha mais nova do falecido tinha decidido ir para a vida religiosa. O pai manifestou-se e manteve-se contra, pois era mais uma filha que ficando por perto cuidaria dos pais na doença e na velhice. Quando, de facto, foi necessário foi esta filha que assumiu os cuidados dos pais. Consagrada ou casada, a obrigação para com os pais é a mesma. A dedicação em todo o tempo a Deus nunca serve de desculpa para esquecer os outros. Pelo contrário, é inelutável que o verdadeiro amor a Deus nos leve ao cuidado de todos, especialmente dos mais frágeis.

       Seguir Jesus implica toda a nossa vida, a vida toda, em todos os seus aspetos. Somos cristãos em qualquer situação, não apenas quando nos convém, nos dá mais jeito ou quando temos mais tempo. É dessa forma que ganhamos a vida, perdendo-a, gastando-a, dando-lhe sentido e sabor pelo serviço, pelo cuidado, pela descoberta vocacional. É dando que se recebe, é dando que se acolhe a vida como dom alegre. Quem resguarda a sua vida por medo ou para não se incomodar, acabará por morrer sem ter vivido!

 

 

       4 – A referência é Jesus Cristo. Segui-l'O para O imitar, para gastar a vida como Ele, a favor de todos. Com efeito, lembra-nos São Paulo, fomos batizados em Cristo, sepultados na Sua morte, para com Ele ressuscitarmos. Se morremos com Cristo, vivamos então com Ele uma vida nova. «Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida, é uma vida para Deus. Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus».

       A interpretação paulina é sublime: "perder" a vida, morrendo para o pecado, para a ganhar, para vivermos em Deus. Configurados com Cristo, deixemos que Ele nos ilumine, nos guie e viva em nós e através de nós. Morrendo por causa d'Ele, havemos de situar-nos na vida que permanece. É a Sua promessa. Tudo o que fizermos, e voltamos ao ponto de partida, façamo-lo em nome de Jesus, por amor a Jesus, com o amor de Jesus. E então tudo terá mais sentido, um sentido mais pleno, a vida, os pais, os filhos. Importa tomar a nossa cruz, dia após dia, e segui-l'O, imitando-O. «Se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: Não perderá a sua recompensa».

       Seguir Jesus não servirá nunca para justificar a indiferença ou o descarte a que botamos as pessoas. Seguir Jesus com a nossa vida inteira faz-nos incluir os pais, os filhos, os amigos, os vizinhos, os colegas de trabalhos, aqueles de quem não gostamos tanto e sobretudo as pessoas mais fragilizadas, pela doença, pela pobreza, pela exclusão social, cultural, económica ou política.

       O salmo faz-nos ver a prioridade, a precedência e o que é verdadeiramente essencial. «Feliz do povo que sabe aclamar-Vos e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto. Todos os dias aclama o vosso nome e se gloria com a vossa justiça.... Vós sois a sua força, com o vosso favor se exalta a nossa valentia. Do Senhor é o nosso escudo e do Santo de Israel o nosso rei».

 

       5 – Na primeira leitura é visível que quem faz o bem é recompensado, sem corrermos o risco do automatismo e da magia. É que fazer o bem abre-nos o olhar para a vida, faz-nos compreender melhor quem se aproxima de nós, espevita a nossa atenção e o nosso cuidado para com os outros, provoca-nos a melhorar o mundo. E o bem que promovemos também nos há de beneficiar, a nós e aos vindouros. Em sentido oposto, se destruirmos o mundo (humano) sofrerão os nossos filhos, mas também nós estaremos em processo destrutivo, suicida.

       O profeta Eliseu passou numa cidade onde encontrou uma distinta senhora que o convidou para comer em sua casa. Sempre que ele passava por aquela cidade, ia tomar uma refeição a casa desta família. Percebendo que é um homem de Deus, preparam-lhe um quarto, com cama, mesa, cadeira e uma lâmpada, para que possa descansar e prosseguir a sua missão.

       A recompensa é vida: «No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços». Quem gasta a vida a favor dos outros, é vida que encontra!

       Saibamos nós também reconhecer que quem nos visita, quem nos encontra, é homem, mulher de Deus, que temos de tratar bem, pois é a Deus que estaremos a servir, a amar, a cuidar.

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): 2 Reis 4, 8-11. 14-16a; Sl 88 (89); Rom 6, 3-4. 8-11; Mt 10, 37-42.
Domingo XVI do tempo Comum - ano A - 23 de julho de 2017

1 – Jesus, rodeado da multidão, continua a falar em parábolas. As que hoje nos apresenta são mais algumas pérolas preciosas que devemos refletir, partilhar, traduzir para a nossa vida, adaptá-las ao nosso relacionamento com os outros, para que não desperdicemos o bem só porque em determinada altura se afigurou o mal ou prevendo sacrifício e sofrimento; ao invés, sejamos resilientes...  VER +

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