Solenidade da Santíssima Trindade - 16 de junho de 2019


1 – A atualidade permite-nos o contacto imediato com o mundo inteiro. Vivemos numa aldeia global. As vias de comunicação viária, terrestre, aérea possibilitam-nos ir mais longe e mais depressa. Os meios de comunicação social carregam-nos de informações em direto, instantes depois de alguma tragédia, já estamos por dentro daquilo que as objetivas captam, com a interpretação de quem filma e/ou interpreta o que vê.

Como alertava Bento XVI, a globalização dos meios de comunicação social faz-nos vizinhos, mas não nos torna irmãos. Dá-se a globalização da indiferença ao invés da proximidade e do encontro (Papa Francisco). A globalização faz-nos conhecedores de outros mundos, culturas e sensibilidades. Janelas e portas abertas para o mundo. Mundos que entram nos nossos ecrãs sem nos mexermos do lugar. Podemos ficar, alegre e preguiçosamente, no sofá como espetadores, voyeurs ou expondo-nos aos outros! Mas isso não é sinónimo de humanização e socialização. Pelo contrário, muitas vezes faz-nos acomodar à indiferença perante o sofrimento alheio, torna-nos parasitas, desumaniza-nos e, de sujeitos, passamos a ser objetos, e do mesmo modo os outros se convertem em objetos do nosso divertimento, sem consequências que nos envolvam pessoalmente.

Costuma dizer-se que quem viaja por outros mundos e culturas, enriquece-se, abre-se aos outros, aprende a viver com as diferenças, a ser mais tolerante e a reconhecer que não vive numa ilha, capacitando-se para contribuir para uma sociedade mais justa, aceitando o contributo dos outros, para uma sociedade mais fraterna. Era a esperança dos avanços tecnológicos e da massificação dos meios de comunicação social e das redes sociais. O mundo digital é uma promessa, com elevadas expetativas, mas igualmente com muitos riscos.

Na Internet vão-se criando grupos (alguns radicais, extremos, de direita ou de esquerda, religiosos ou políticos ou ideológicos, anárquicos ou nacionalistas) e as pessoas juntam-se ao que é igual, fecham-se em novos círculos, procurando impor e destruindo o que é diferente.

 

2 – Como cristãos, teremos de viver trinitariamente, na vida pessoal, familiar e comunitária. Fomos batizados na água e no Espírito Santo, mortos com Jesus para o pecado e com Ele ressuscitados, como novas criaturas, para constituirmos família, filhos do mesmo Pai do Céu.

A comunhão trinitária enraíza a Igreja, Corpo de Cristo. Ele, Jesus Cristo, a Cabeça, e nós os membros. Cada um com os seus dons e fragilidades. A consciência da nossa pobreza abre-nos à riqueza dos outros. O fundamento é Cristo, que Se fez pobre para nos enriquecer com a Sua com o Seu amor.

Há dias, o Selecionador Português, Fernando Santos, quando lhe perguntavam sobre a sua fé, e como viver a fé num mundo em que muitos são indiferentes à religião, dizia que a base é o respeito: temos de respeitar-nos. As maiorias respeitarem as minorias. O mal está quando queremos impor pela força as nossas convicções. As minorias querem ser respeitadas, mas, quando se tornam maiorias, passam elas a impor-se pela força, pela propaganda. É um risco. Como não lembrar, uma vez mais, as palavras de Bento XVI, o cristianismo expande-se pela atração, não pelo proselitismo.

A tentação é de todos. Os meios de comunicação social, em geral, e as redes sociais, em particular, não têm sido, na maioria dos casos, um fator de abertura ao diferente, de tolerância, mas têm servido para "impingir" ideologias, impor minorias, para difundir mensagens de ódio e de anarquia, extremismos, propondo caminhos de destruição, colocando tudo e todos em causa, algumas vezes sob coação, ameaça e chantagem. Aderimos a grupos que são iguais, dizem connosco, têm a mesma filosofia ou orientação religiosa; excluímos pessoas, saímos de grupos, expomos aqueles de quem não gostamos ou não fazem parte do nosso grupo.

O que deveria ser um instrumento de aproximação, de liberdade, de tolerância e de enriquecimento mútuo, surge, tantas vezes, como meio de destruir, de semear e alimentar ódios e vinganças. Daí a urgência de gerirmos a nossa vida trinitariamente, com a nossa identidade e convicções, na abertura, acolhimento e respeito pelas convicções dos outros.

 

3 – O cristão é discípulo de Jesus, prosseguindo os Seus passos. Não é demais relembrar: a fé cristã mais que um conjunto de verdades e exigências, mais que uma filosofia de vida ou uma estrutura estática, é um encontro (vital) com Jesus Cristo. Um encontro que nos ilumina e nos transforma. Temos essa consciência em relação a um amigo, um familiar ou até um estranho: esta pessoa mudou para sempre a minha vida. Também o encontro com Jesus terá de ser nestes moldes: Ele muda a minha vida para sempre. Nada pode ser como antes. Todos os dias. Cada dia. Ele muda-me, transforma-me, compromete-me, faz-se sair do meu espaço de conforto para ir ao encontro do outro, como Maria, para anunciar a alegria do Evangelho, levando a paz e a bênção, e ajudando em tudo o que é possível e necessário.

Ao longo da Sua vida, Jesus vai a todos os lugares, contacta com todas as pessoas, mistura-se com os pecadores e publicanos, come com eles, não faz aceção de pessoas, convive com mulheres, mesmo que tenham fama duvidosa, com doentes (leprosos, surdos, mudos, cegos, coxos), sem fastio nem pressa em partir, faz incursões em território "inimigo", chega mesmo a apresentar "estrangeiros" como modelos de fé e de vida, como o centurião, a mulher cananeia, ou a referência ao Bom Samaritano. A única condição é amar, acolher, servir, cuidar, perdoar, reconhecer o outro como semelhante, como irmão, como lugar-tenente de Deus. Os discípulos afastam as crianças para não incomodar... a resposta de Jesus: deixai vir a Mim as criancinhas; os discípulos proíbem um homem por expulsar demónios em nome de Jesus... a Sua resposta é eloquente: Não o proibais, quem não é contra nós é por nós!

 

4 – Jesus insere-nos em dinâmica trinitária. Eu e o Pai somos Um. Quero que onde Eu estou vós estejais também. Permanecei no meu amor. Se permanecerdes no Meu amor, se guardardes os meus mandamentos, então Eu virei a vós, Eu e o Pai faremos em vós a nossa morada, para que também sejais um como Eu e o Pai somos um. O Pai é maior. Vou para o Pai. Enviar-vos-ei o Espírito Santo que vos relevará toda a verdade. «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

Digo-vos o que ouvi a Meu Pai. Faço as obras que o Pai me mandou fazer. O Espírito Santo não falará de Si mesmo, receberá do que é Meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu.

Na Epístola aos Romanos, São Paulo enquadra e explicita a nossa vida cristã e trinitária, a comunhão que se enriquece na sadia convivência com os outros. Fomos "justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado".

 

5 – Ao relermos o Antigo Testamento, história da Aliança de Deus com o Seu povo eleito, a partir de Jesus Cristo e da revelação dos mistérios divinos, percebemos como o Espírito Santo pairava sobre as águas na criação, inspirava juízes, sacerdotes e profetas para comunicarem a vontade de Deus, guiava o povo pelo deserto e os seus líderes no discernimento do caminho a seguir. Do mesmo modo, a Palavra de Deus, a Sabedoria divina, podem divisar a Pessoa do Filho.

Escutemos o que nos diz a Sabedoria de Deus: «O Senhor me criou como primícias da sua atividade, antes das suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui formada, desde o princípio, antes das origens da terra... Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente… deleitando-me continuamente na sua presença».

São João diz-nos claramente que "no princípio era a Palavra (Verbo)... e a Palavra era Deus... por meio d'Ela todas as coisas surgiram e sem Ela nada foi feito". E também São Paulo, na Epístola aos Colossenses: "Ele é a imagem do Deus invisível... porque foi n'Ele todas as coisas foram criadas".

 

6 – Na dúvida e na hesitação, nos tormentos e nos conflitos, procuremos perscrutar o que nos diz o Senhor Deus. Rezemos: «Deus Pai, que revelastes aos homens o vosso admirável mistério, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade, concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé, reconheçamos a glória da eterna Trindade e adoremos a Unidade na sua omnipotência».

Reconhecimento a Santíssima Trindade, adorando a Unidade, dispomo-nos à comunhão com os outros, sem aniquilar nem excluir as diferenças que nos enriquecem mutuamente. Um só Corpo, a Igreja, muitos membros, cada um contribuindo para o bem de todos com os dons que Deus lhe dá.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Prov 8, 22-31; Sl 8; Rom 5, 1-5; Jo 16, 12-15.


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