Domingo XXI do Tempo Comum - ano C - 25 de agosto de 2019


1 – «Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos». Esta é uma das afirmações contundentes e bem conhecidas que saem dos lábios de Jesus. Quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado. Quem quiser ganhar a vida há de perdê-la e quem perder a vida (por Minha causa) há de ganhá-la para a vida eterna! Contrapontos que nos fazem refletir, melhor, que devem comprometer-nos a viver, a gastar-nos em prol dos outros, levando-nos a assumir como salvação o serviço, o cuidado e a delicadeza para com aqueles que Deus colocou à nossa beira, especialmente os mais pequeninos.

Mais felizes são aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática. Minha Mãe, meus irmãos e minhas irmãs são aqueles que fazem a vontade do Pai. A fé autêntica converter-se-á em serviço. A oração far-se-á vida e geradora de vida. Proximidade, familiaridade e intimidade com Deus, traduzíveis em ternura, compaixão e ajuda aos outros.

A fé que não se traduz na vida, concretizando-se nos afazeres quotidianos, é uma fé atrofiada, condenada ao fracasso. A fé coloca-nos diante do Deus de Jesus Cristo, um Deus que é Pai e nos ama com o coração de Mãe. Qual o desejo dos pais? Que os filhos se tratem como irmãos! Qual é o desgosto dos pais? Que os filhos não se entendam e andem sempre às turras.

 

2 – O ministério missionário de Jesus prossegue. Ensina nas cidades e nas aldeias por onde vai passando. Alguém lhe pergunta pela vida eterna: «Senhor, são poucos os que se salvam?».

Com efeito, tendo em conta que Jesus anuncia a salvação, a chegada do reino de Deus, convocando à conversão, é legítima a pergunta, que ouvimos em outros contextos. Como não lembrar, por exemplo, o encontro de Jesus com um jovem que Lhe pergunta: «Mestre, que hei-de fazer de bom para ter a vida eterna?» No diálogo, vai-se verificando que o jovem já faz muita coisa, é cumpridor da lei, mas falta-lhe dar-se a si! Jesus sublinha, concluindo, que é difícil um rico salvar-se! Logo os discípulos O questionam: «Quem poderá então salvar-se?». E mais uma vez, Jesus clarifica que a salvação é, antes de mais e acima de tudo, gratuita, dom de Deus: «Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível». Caber-nos-á acolher o projeto que Jesus inicia e, nesse acolhimento, tornar-nos coerentes com o seguimento. Seguir Jesus implicará, sempre, agir do mesmo modo que Ele. Só assim faz sentido ser discípulo!

Como em outras ocasiões, Jesus opta, não por uma resposta direta, fechada, mas por nos fazer refletir e, sobretudo, nos apontar o caminho da salvação. Importa que todos se salvem, que ninguém se perca. Deus é Pai e nenhum Pai quer perder os filhos! Não importa saber quem se salva, como curiosidade! Deus saberá! O fundamental é a resposta que eu e tu damos à proposta de Jesus.

 

3 – «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir». O depois está incoativamente presente no antes. A vida eterna começa aqui e agora (hic et nunc), connosco, comigo e contigo. Não é na hora da morte. Não é no final. Aí já não está ao nosso alcance. Essa será a hora de Deus nos assumir em definitivo, usando da Sua misericórdia para connosco. Para nós vale o “entretanto”, o hiato de tempo que vai do nascimento (ou de quando temos consciência e responsabilidade) até à morte, com as circunstâncias dos tempos e dos lugares, com as nossas fragilidades e com os dons que Deus nos dá.

Sabermos se se salvam muitos ou poucos não é fundamental, o decisivo é o que fazemos com a salvação que Cristo nos oferece no tempo presente, a todos, e o que fazemos com os dons, com os talentos d'Ele recebidos: guardámo-los ou gastámo-los, multiplicando-os?

Jesus adverte: «Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus».

As desculpas não se pedem, evitam-se! Pelo menos quando é possível. As intenções também valem, no esforço por se concretizarem e traduzirem em compromissos. De intenções, diz o povo, está o cemitério cheio! Não basta conhecer, dizer que se tem fé, que se é religioso, é imperioso praticar a justiça, viver em modo de caridade e de serviço, na atenção ao próximo. As palavras serão validadas com a vida, a fé firmada nas obras.

 

4 – No dizer de Santo Agostinho, a porta é estreita, não tanto pela estreiteza da porta, mas pelas muitas pessoas que entrarão por ela, a Porta da Misericórdia. O máximo atributo de Deus é a Misericórdia. Também a justiça se conjuga e se subjuga à misericórdia de Deus, que é Pai e ainda mais Mãe (João Paulo I).

Também aqui o que conta é o caminho que nos predispomos a fazer. E o caminho faz-se caminhando, com os outros, nunca contra os outros. Os outros são irmãos, não adversários. A salvação de Deus, que é Pai, é para todos os filhos, para toda a humanidade.

Diz-nos o Senhor, na primeira leitura: «Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória… enviarei sobreviventes às nações que não ouviram falar de Mim nem contemplaram ainda a minha glória, para que anunciem a minha glória. De todas as nações, como oferenda ao Senhor, eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos até ao meu santo monte, em Jerusalém».

Aqueles que conhecem a Glória de Deus e se alimentam do Seu amor, são enviados a outros lugares, para que mais pessoas possam conhecer e entrar nesta Glória. Também o salmo nos remete para a dimensão missionária dos crentes: "Ide por todo o mundo, anunciai a boa nova. Louvai o Senhor, todas as nações, aclamai-O, todos os povos".

 

5 – Logo no início da Eucaristia, na oração, comprometemo-nos a fixar o olhar, o coração e a vida em Deus, de Quem nos vem a salvação, a paz e a alegria: "Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias".

Que quer Deus senão que todos se salvem? Jesus di-lo de forma clarividente: Deus é Pai e todo o Pai escuta e procura responder aos desejos e aos pedidos dos filhos! Quanto mais o Vosso Pai que está nos Céus? A Encarnação visa precisamente salvar, redimir, congregar, reconduzir todos os filhos à Casa do Pai. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com o Seu amor e com a Sua vida. Fez-Se um de nós, para que nós, eu e tu, e todos, aprendêssemos a ser como Ele, para vivermos marcados pela Sua vida e acedermos, pela Sua graça, à vida eterna. Aqui radica também a dimensão missionária da Igreja e dos cristãos que a compõem: anunciar a Boa Nova a todos os povos para que todas as gentes possam alegrar-se na glória de Deus e participar da Sua vida, aqui e na vida futura. Esta enraíza-se no tempo e na história.

 

6 – A Epístola aos Hebreus, por sua vez, sublinha a nossa condição de filhos e as provações que vamos encontrando como oportunidade de nos lembrarmos que estamos a caminho, somos frágeis, precisamos de atenção e vigilância. Deus fala-nos e está presente também nesses momentos de adversidade. «Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem desanimes quando Ele te repreende; porque o Senhor corrige aquele que ama e castiga aquele que reconhece como filho».

E salienta o autor desta Carta: "É para vossa correção que sofreis. Deus trata-vos como filhos. Qual é o filho a quem o pai não corrige? Nenhuma correção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza. Mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça. Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos, para que o coxo não se extravie, mas antes seja curado".

Os tempos de adversidade são também habitados por Deus. Cabe-nos persistir, sabendo que Ele prossegue connosco.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Is 66, 18-21; Sl 116 (117); Hebr 12, 5-7. 11-13  Lc 13, 22-30.


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