Domingo XVII do Tempo Comum - ano A - 30 de julho de 2017


1 – Diálogo entre 4 jovens:

– Queria um Galaxy S 8+, mas não tenho guito!

– E por que não um Iphone 7? É muito mais top!

– Por esse preço prefiro o Huawei

– O 10? Mas também é muito caro.

– Já pedi ao meus pais, mas são cotas, não percebem nada, dizem-me que o que tenho é mais que suficiente!

– Eles não percebem nada de telemóveis... estão fora de moda! Nada fashion... Pensam no futuro...

– Vou vender este, vou vender o tablet, e vou ver se arranjo um trabalho em part-time..

– A sério? E então a mesada? Se insistires os teus pais compram-to em menos de nada.

– Iah! Mostras-te mais meiga, acompanha-los nas saídas deles...

– Ou fazes ao  contrário, vais para o quarto e fazes birra, só apareces para jantar.

– Iah. Além disso tens sempre boas notas, dizes-lhes que mereces.

– Não. Já decidi. Vou colocar o meu telemóvel no OLX, o meu tablet, e se trabalhar 15 dias no café, vou ter dinheiro suficiente.

– Mais a mesada!

– Não vai ser necessário, depois os meus pais diziam que tinham sido eles.

– Mas também foram eles que te deram o telemóvel que tens, o tablet...

– Este vai ser à minha custa...

– Se quiseres eu consigo-te um Iphone 7 como novo muito mais barato.

– Não, não, este é muito mais bonito, é super top!

 

2 - Jesus continua a falar-nos em parábolas. As duas primeiras falam-nos de tesouros e pérolas que concentram toda a atenção e que justificam a renúncia a outros pequenos tesouros.

«O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».

Há uns domingos atrás ouvíamos Jesus a colocar-nos entre escolhas:

«Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim». São opções. Prioridades que resolvem uma vida. Um grande amor merece e implica todas as renúncias. Perguntai a uma mãe o que está disposta a fazer em prol dos filhos! Tudo. O corpo, o sangue, qualquer vexame! Se fosse possível, a Mãe ficava doente, iria para a cadeia, morreria em vez dos filhos. Faria qualquer coisa para que os filhos ficassem bem e não tivessem que passar nenhum sacrifício ou sofrimento.

Jesus coloca-nos diante de um amor maior, um único amor, o Reino de Deus. Onde está o teu tesouro estará o teu coração. Para o cristão o Reino de Deus coincide com o próprio Jesus. Ele é o reino de Deus no meio de nós. As palavras de Jesus são lapidares: o seguimento precede qualquer amor, por maior que seja. Víamos então que a exclusividade exigida por Jesus humaniza as relações, tirando-lhes o peso do endeusamento e o risco da instrumentalização. E em nada diminui ou secundariza a ligação, o cuidado e o compromisso com aqueles que Deus coloca na nossa vida. Primeiro o reino de Deus e a sua justiça e o mais virá por acréscimo. Cumprir com a justiça do reino significa seguir Jesus, amá-l'O de todo o coração, antes e acima de tudo, mas implica igualmente fazer como Ele: dar a vida, gastar a vida, resistir a todo o mal, cuidar de todos, daqueles que estão por perto, daqueles que se cruzam connosco.

 

 

 

3 – A terceira parábola deste domingo tem semelhanças com a parábola do trigo e do joio: «O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos».

Em definitivo não nos cabe a nós ajuizar, dividir e condenar. Lembremo-nos que a pressa em destruir o joio pode levar-nos a destruir também o trigo. A paciência de Deus dá tempo aos outros, dá-nos tempo a nós, para amadurecer. Deus é paciente e misericordioso, clemente e cheio de compaixão.

 

4 – Durante três anos, Jesus rodeia-se dos Doze e de outros discípulos para os instruir, os desafiar, os envolver no projeto do reino de Deus. Aqui e além provoca-os com palavras, com gestos, com a Sua postura. Também as parábolas são momentos de instrução e de convocação à sabedoria. É admirável como um conjunto de maltrapilhos vão espalhar a mensagem pelo mundo inteiro e como, quase ignorantes, simplórios, se arriscam em praças públicas a pregar, a anunciar destemidamente o Evangelho, repetindo e atualizando as histórias, argumentando, debatendo, refletindo. Se imaginarmos Pedro, um pescador, impulsivo, rude, com o coração ao pé da boca, capaz de argumentar diante das autoridades e escrever (ou inspirar) cartas magníficas à Igreja, vemos como se deixou moldar pelo Espírito de Deus, superando os seus impulsos e as suas limitações.

Depois da narração das parábolas às multidões, Jesus aprofunda as explicações aos seus discípulos e convida-os a utilizar com criatividade a mensagem do reino de Deus. «Todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».

Salomão pede a Deus, não o poder ou uma longa vida, pede a sabedoria para guiar o povo que lhe foi confiado. Quem se lembra das palavras do Eng. Fernando Santos aquando da vitória no europeu de futebol? A Deus, o selecionador português pediu a humildade e a sabedoria para liderar o grupo de jogadores. Não pediu a Deus a vitória no jogo, mas a sabedoria para lidar com o grupo.

Por vezes queremos o mundo inteiro, de bandeja, de mão beijada, mas o que precisamos é da sabedoria de coração para resistirmos ao mal e às adversidades, a humildade para recomeçarmos sempre que necessário, a resiliência para lutarmos pela justiça, pela verdade, pelo bem. Vivemos dias em que a felicidade e o conforto estão colocados à frente da verdade e da beleza, ainda que sejam estas que nos humanizam, nos irmana e nos conduzirão até à eternidade.

 

 5 – O ideal de um cristianismo sem lágrimas ("Admirável mundo novo"), um cristianismo sem cruz, não é possível, seria sempre falacioso, uma mentira. Jesus veio ao mundo para nos remir, para nos elevar, mas não para nos substituir, não para tornar insossa a nossa vida. Nada, com o tempo isso se torna mais claro, nada se consegue sem esforço, ou melhor, nada se valoriza que não exija cuidado, trabalho, dedicação e até sacrifício. O sofrimento é inevitável, porque não somos deuses e porque vivemos no tempo.

Contudo, garante-nos São Paulo, Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam. O amor a Deus, priorizando a nossa atenção, o nosso tesouro, reenvia-nos ao compromisso na transformação da vida e do mundo, ao serviço dos mais frágeis.

Sem Deus, a vida seria um descalabro ou, pelo menos, não teria um sentido de plenitude. «Deus, protector dos que em Vós esperam, sem Vós nada tem valor, nada é santo». Pedimos-Lhe: «Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos» (oração de coleta). Também aqui a sabedoria do coração para não nos antepormos com o nosso egoísmo e com o nosso pecado à graça e à benevolência de Deus que em Cristo nos irmana.

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): 1 Reis 3, 5. 7-12; Sl 118 (119); Rom 8, 28-30; Mt 13, 44-52.

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