Domingo XVI do Tempo Comum - ano C - 21 de julho de 2019


1 – A hospitalidade há de ser a marca do cristão: ser hospitaleiro, acolher com fidalguia, criar condições para que o outro se sinta em casa. A liturgia da Palavra que nos é servida fala-nos da hospitalidade generosa de Abraão, da hospitalidade nervosa de Marta, da hospitalidade serena de Maria.

Ligamos facilmente as palavras hospital, hospitalidade, hospitaleiro. A palavra vem do latim, de "hospes" e significa hóspede. Daí outras palavras como "hospitalis", casa de hóspedes, ou "hospitium", lugares onde na Antiguidade se hospedavam enfermos, viajantes, peregrinos, mas também pobres, incuráveis, insanos, neste caso "hospitium", isto é, hospício

A função do hospital era exercer a caridade a pessoas pobres, doentes, órfãs, idosas e a peregrinos. Missão muito específica realizada por monges e freiras. A hospitalidade tem a ver com bom acolhimento, cuidando dos mais frágeis, ajudando à recuperação dos doentes, proporcionando descanso e o retemperar das forças aos viandantes, permitindo guarida aos pobres e forasteiros.

Como não lembrar a estalagem onde o Bom Samaritano deixa para tratamento o homem espancado que descia de Jerusalém para Jericó. O Bom Samaritano, primeiro, cuidou das feridas, depois, confiou-o ao estalajadeiro. A Igreja deveria ser como que um Hospital de campanha, imagem muito querida ao Papa Francisco, ou como estalagem. Diz um sacerdote italiano, Luigi Epicoco, sobre esta imagem: "A estalagem é familiaridade, acolhimento e refúgio para a noite. Com frequência pergunto a mim mesmo se a Igreja será ou não um lugar onde paramos para restaurar forças. Um lugar não para morar, mas antes e sempre um pedacinho da casa que encontramos, um lar onde possamos reaquecer-nos, onde encontramos uma iguaria quente para satisfazer aquela fome de felicidade que nos instigou ao caminho. A Igreja é a estalagem, não a habitação definitiva que, para nós, cristãos, é o Céu". É esta hospitalidade em que a Igreja e os cristãos devem apostar.

 

2 – A hospitalidade, mais que uma palavra, terá de ser uma atitude permanente do cristão, concretizável na relação com o outro, em família, em Igreja, em sociedade. A hospitalidade é feita de vários rostos, melhor, cada um de nós, há de ser um rosto de acolhimento, de encontro, de descoberta, fazendo com que o outro encontre, no nosso olhar e no nosso sorriso, desejo, paz, alegria, conforto e afeto que o façam querer permanecer. É também esse o nosso desejo em relação aos outros: que nos façam querer permanecer, nos façam sentir confortáveis, baixando drasticamente os níveis de ansiedade e tensão. O olhar, o sorriso, a capacidade para escutar e acolher, sem pressas, sem (grandes), distrações nem preocupações. Não precisamos de muitas coisas, precisamos de estar serenos e alegres a falar e sobretudo a escutar, centrados no outro e não em nós, não no que temos de fazer, mas na calma de quem tem todo o tempo do mundo para o outro.

Em Betânia temos uma casa-modelo para acolhermos Jesus, para nos acolhermos mutuamente. Aquela casa é estalagem, para descansar e retemperar forças, é ponto de passagem, a fim de prosseguir caminho, alimentados pela amizade, pela familiaridade, pelo conforto. É hospital de campanha, verifica os nossos cansaços e fadigas, as nossas feridas e os nossos medos, conforta-nos nas nossas dúvidas e desilusões, retempera a nossa confiança, devolve-nos a alegria para partirmos de novo, a viver e anunciar o Evangelho. Em casa de Lázaro, Maria e Marta, Jesus sente-se em casa. Não precisa de bater à porta, é só entrar. Betânia significa a casa do pão. Entra-se em casa e cheira a pão, cheira a vida, cheira a alegria, a fartura e paz. A Casa do pão é casa da amizade, do encontro e da partilha, da comunhão e do cuidado. Ali, sentido-Se da família, Jesus, e, claro os seus discípulos, pode conversar, rir, descansar, desabafar, comer e beber. Não está em território inimigo. Está em casa.

 

3 – Depois de uma longa jornada precisaremos de um pouco de água para beber e para lavar a cara, fazer uma refeição descontraída, onde sobrevirá a familiaridade, a distensão, a amena cavaqueira. Tudo isso encontramos no Evangelho e na Primeira Leitura.

O quadro do Evangelho é elucidativo. A dona da casa é Marta, mas é Maria que faz as honras de bem receber: sentada aos pés de Jesus, escuta-O. "Maria escolheu a melhor parte". Naquele momento nada há de mais importante que Jesus, que estar perto de Jesus, ouvindo as Suas palavras.

Tudo o mais conta: a água para lavar os pés, refrescar a cara, a confeção de uma refeição mais completa, a preparação de espaços para o descanso noturno. Marta faz isso muito bem. Com alguns servos, Marta tem tudo bem orientado. Nem se esperava outra coisa de uma dona de casa. Pode chegar alguém de repente, sem contar, que a dona de casa se desenvencilha com mestria como se estivesse à espera!

As duas irmãs cumprem na perfeição o papel de anfitriãs: Maria faz sala, conversa com Jesus, melhor, escuta Jesus; Marta prepara tudo para que os "hóspedes" se sintam em casa, possam refrescar-se, comer uma bela refeição e descansar. São tarefas complementares.

Entretanto a ansiedade, a inveja e ciúme, a pressa e talvez achar que o seu trabalho é mais importante, fazem com que Marta proteste: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». Então Jesus diz-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».

Já muito se discutiu acerca das duas irmãs. A Igreja como Marta ou como Maria. Ação ou contemplação, serviço ou oração. Mas são faces da mesma moeda. Teremos de ser Marta e Maria. A hospitalidade envolve e exige as duas dimensões, a escuta e a oração, por um lado, as obras e o serviço, por outro. O importante é procurar fazer bem, dar o melhor, em cada dimensão da vida.

 

4 – Na primeira leitura surge a figura de Abraão, cuja hospitalidade é testemunho e desafio para nós. Sem o saber, Abraão acolhe o Senhor, acolhe três homens no maior calor do dia. A atitude de Abraão é clarificadora. Quando vê aquelas personagens não se interroga se vêm por bem ou se são malfeitores, levanta-se de imediato para os acolher.

Antes de eles pedirem seja o que for, Abraão prostra-se diante deles, como diante de Deus: «Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos, não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo. Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, pois não foi em vão que passastes diante da casa do vosso servo».

Para Abraão não há coincidências fortuitas. Se aqueles homens passaram por ali, então terá sido Deus a colocá-los no seu caminho. "Que permaneça a caridade fraterna. Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos" (Heb 13, 1-2).

Abraão, quase como Marta, apressa-se a tratar de uma refeição condigna para as visitas, envolvendo outros no trabalho, Sara, sua esposa e os servos. Ele próprio deita mãos à obra, escolhendo, do seu rebanho, um vitelo tenro e bom e manda confecioná-lo, assegurando-se que tudo é feito com a máxima rapidez, mas também o melhor possível. Abraão não se mostra agastado, mas feliz e abençoado. E, se num momento parece Marta, no seguinte aparenta-se com Maria. Enquanto comiam, Abraão ficou de pé, junto deles, debaixo da árvore.

A hospitalidade de Abraão não ficará sem recompensa: «Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho». Sublinhe-se, no entanto, que a hospitalidade é gratuita, não faz calculismos para o futuro; procura, agora, proporcionar aconchego, conforto e cuidado, sem outro interesse que não seja acolher bem e fazer com que o outro se sinta em casa, se sinta amado.

 

5 – Sendo Deus, Jesus faz-Se um de nós. Ele faz a Sua tenda no meio de nós. Assume-nos por inteiro. Vem habitar connosco. É como que uma hospitalidade invertida. Ou oferecida. "Zaqueu desce depressa, hoje preciso de ficar em tua casa". Jesus faz-Se convidado, desafia a nossa hospitalidade. "Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo" (Apo 3, 20). O próprio Jesus nos interpela: "Se alguém me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jo 14, 23).

É, por certo, este o entendimento de São Paulo. O Apóstolo deixou-se converter por Jesus, deixou-se encontrar por Ele e acolheu Jesus ao ponto de se identificar com Ele. Já não sou eu, mas Cristo em mim. Para mim viver é Cristo. E tudo, até mesmo os sofrimentos por causa de Jesus, são motivo de louvor e ação de graças. "Alegro-me com os sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja. Dela me tornei ministro, em virtude do cargo que Deus me confiou a vosso respeito, isto é, anunciar-vos em plenitude a palavra de Deus, o mistério que ficou oculto ao longo dos séculos e que foi agora manifestado aos seus santos".

A Paixão de Cristo completa-se em nós, envolvendo-nos, concretiza-se, ou melhor, torna-nos completos, salvos, redimidos. Precisamos de a tornar visível na fé, na esperança e caridade, virtudes que acolhemos como dom e que temos a missão de estender aos outros.

 

6 – Maria, Mãe de Jesus, e criatura como nós, é modelo de acolhimento e hospitalidade. Ela é a primeira casa onde Jesus habita. No sim de Maria, Deus vem habitar a humanidade. No alto da cruz, a mesma missão, já não apenas como Mãe de Jesus, mas Mãe de toda a Igreja, nossa Mãe. A partir daquela hora o discípulo recebeu-a em sua casa. Com Ela aprendemos a hospedar Jesus, tornando-A nossa hóspede, fazendo-a sentir em casa.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 18, 1-10a; Sl 14 (15); Col 1, 24-28; Lc 10, 38-42.


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