Domingo III da Quaresma - ano C - 24 de março de 2019


1 – Prevalência da misericórdia sobre a ira, primazia da paciência sobre a precipitação, precedência do amor sobre o egoísmo. É assim que Jesus vive. É desta forma que Jesus, pelas suas palavras e pela Sua vida, nos revela a vontade de Deus. Há de ser essa a nossa opção, para chegarmos a ser verdadeiramente filhos de Deus, para nos tornarmos, efetivamente, discípulos de Jesus.

 

2 – Quando olhamos para as catástrofes naturais, como o ciclone em Moçambique, pode advir a tentação de culpar alguém ou, pelo menos, de interrogar Deus. Há, apesar de tudo, alguns indícios e estudos que apontam responsabilidades humanas em alguns fenómenos "naturais", potenciados por comportamentos destrutivos do habitat natural, pela poluição do solo, dos rios e dos mares, da atmosfera. O aquecimento global da terra, o efeito estufa, o buraco do ozono, tem alterado o clima em várias zonas do mundo, sendo que há tempestades, cheias, que se devem a alterações aceleradas do meio ambiente, sem que este tenha "tempo" para corrigir os excessos.

Mas daí a culpar Deus, vai uma distância colossal! Daí a culpar as pessoas atingidas pelas calamidades, vai uma distância enorme. Há fenómenos que de facto não conseguimos abarcar, explicar ou justificar, como há situações na nossa vida que escapam à nossa compreensão. Um dia chegaremos a ver Deus face a face, já não na antecipação eucarística, mas realmente como Ele nos vê e como Ele nos deixará ver-nos: o que somos! Porquanto vamo-nos apercebendo que há questões para as quais não há respostas e há respostas que encontramos que nos abrem para novos questionamentos. Contudo, cabe-nos viver, amar, servir, gastar a vida, colocar o melhor de nós em tudo o que fazemos. É o caminho da conversão, que nos leva a Jesus, que nos faz ser como Jesus, vivendo como Ele, gastando-nos até ao fim, sem pausas nem reservas. Discípulos missionários até morrermos! Tudo, todos, sempre em missão.

 

3 – Contam a Jesus como Pilatos tinha mandado matar alguns galileus. Logo há alguém diretamente culpado! Mas, e os que morreram? Jesus dá uma resposta clara: não menos e não mais pecadores que os outros galileus. E acrescenta outro acontecimento: 18 homens mortos pela queda da torre de Siloé! Nem mais nem menos culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém. Resposta desafiadora de Jesus. Foram estes, poderiam ter sido outros, sem que haja uma ligação direta entre culpa e castigo. É, na verdade, uma questão difícil de dissolver, pois há pessoas justas que se sentem esmagadas e há pessoas corruptas que se sentem abençoadas. Talvez como Job, tenhamos de perceber que os mistérios de Deus são mais profundos e mais amplos que as nossas razões. Há momentos que temos de dar o salto, confiar que Deus nos ama e que nunca nos abandona.

Na continuação da resposta, Jesus apõe um desafio: "E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo". Com certeza que não vamos morrer às mãos de Herodes e também não morreremos debaixo de uma torre, pelo menos aquela que caiu há 2 mil anos. Mas pode acontecer que morramos em qualquer altura, por causas provocadas pelos outros, por situações em que tenhamos contribuído para acelerar essa hora, ou por qualquer um outro incidente da natureza. Ou simplesmente pelo "desgaste" do tempo!

Mas podemos fazer com que a nossa vida prevaleça além da morte natural/biológica. Se nos arrependermos, se fizermos com que a nossa vida valha a pena para nós e para os outros - o amor faz-nos perdurar no tempo, faz com que a relações entre as pessoas se eternizem - então não morreremos de modo nenhum, pois seremos alcançados para a eternidade de Deus. Quem der testemunho de Mim diante dos homens também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus! O que fizerdes ao mais pequeno dos irmãos é a Mim que o fazeis.

 

4 – Na parábola, narrada por Jesus, ressalta a paciência para cuidar da figueira para que volte a dar fruto. Diz o senhor ao vinhateiro: "Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?"

Mais que uma ameaça, é sobretudo um aviso, um desafio. Temos de fazer melhor. "Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano". É o trabalho de Jesus. Ele chama-nos e envia-nos (Igreja de Lamego, chamada e enviada em missão). Jesus não é um escudo que nos protege das garras do Pai, é o Rosto e a Presença do Amor de Deus que nos envolve e nos compromete, fazendo-nos ver que o amor e o serviço, o perdão e a ternura, a partilha e o cuidado aos outros, nos afeiçoa a Deus, tornando-nos semelhantes a Ele, já que primeiro Ele nos criou semelhantes a Si, assemelhou-nos a Ele, e, em Cristo, assumiu a nossa condição peregrina, para caminhar entre nós, para ser o Caminho que nos faz regressar a Casa.

 

5 – Na primeira leitura, Deus, a partir da sarça-ardente, através do Seu Anjo, chama Moisés, que apascentava o rebanho de seu sogro, junto ao monte santo. Moisés viu. Aproximou-se. Por um lado, Moisés não abandona os seus afazeres, mas, ao mesmo tempo, tem de sair um pouco do seu caminho para ver melhor, para se achegar ao caminho do Senhor.

Moisés aproxima-se e Deus chama-o pelo nome: Moisés, Moisés. Moisés percebe o chamamento, a voz do Senhor e logo responde: Aqui estou, Senhor. É curiosa a resposta de Deus, ou melhor, o convite: «Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». Nos dias que correm, muitas vezes nem a terra nem as pessoas são sagradas, nem a vida nem a morte, tudo parece ser controlável e manipulável. No entanto, a voz de Deus continua também hoje a ressoar. Com insistência. Com amor. Não matarás! És guarda do teu irmão!

O Senhor acrescenta de imediato: «Eu sou o Deus de teus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob. Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel».

O Senhor é um Deus de vivos, que escuta o nosso clamor e que vem socorrer-nos. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades. Salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. O Senhor faz justiça e defende o direito de todos os oprimidos. Revelou a Moisés os seus caminhos e aos filhos de Israel os seus prodígios. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem". Prevalência do amor de Deus que se submete à nossa conversão. Podemos escutá-l'O e mudar de vida sempre que, por qualquer motivo, nos afastamos deste chão sagrado, o Seu amor traduzível e concretizável no cuidado aos irmãos.

 

6 – Na segunda Leitura, o Apóstolo São Paulo liga a peregrinação do Povo Eleito à redenção operada em Cristo, com a Sua vida, morte e ressurreição. "Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o batismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo".

No entanto, recorda também o Apóstolo, nem todos agradaram ao Senhor, ou melhor, nem todos quiseram manter-se sob a graça misericordiosa do Senhor. E daí a recomendação de São Paulo: "Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair".replica rolex Por outras palavras, não podemos dar a santidade por adquirida, ainda que Jesus Cristo, gratuitamente, nos tenha inserido na vida divina, cabe-nos vigiar em todo o tempo e procurarmos estar bem sincronizados com a vontade do Senhor, para que a Sua graça não seja desperdiçada ou desaproveitada.

 

7 – A oração é o chão e a oportunidade para que o nosso coração e a nossa vida se mantenham sob a alçada do Senhor. "Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia".

A consciência da nossa fragilidade nos incentive a buscarmos a misericórdia do Senhor. Sempre. Em toda a parte. Ajudando-nos mutuamente.

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102 (103); 1 Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9.


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