Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - ano C - 14 de abril de 2019


1 – A Quaresma colocou-nos a caminhar em direção à Páscoa, fazendo-nos entrar na Semana Santa, na Semana Maior da nossa fé, para que o mistério da redenção nos envolva por completo, fazendo de nós novas criaturas, para Deus e para os irmãos. É a realidade do Sacramento do Batismo que nos incorporou a Cristo e ao Seu Corpo que é a Igreja, da qual nos tornámos membros. Sepultados com Cristo, com Ele ressuscitamos para uma vida nova.

O Batismo, e demais sacramentos, está vinculado a esta semana, à Paixão de Jesus, que entrega a Sua vida a nosso favor e da humanidade inteira, fazendo novas todas as coisas. Uma vez ressuscitados, vamos aperfeiçoando a nossa parecença com Jesus, participando da Sua oferenda, mormente no Sacramento da Eucaristia que Ele instituiu na Última Ceia, para que sempre que nos reunamos em Seu nome, convocados pelo Pai, na comunhão do Espírito Santo, possamos perceber que Ele continua vivo, continua a entregar-Se sacramentalmente, vindo ao nosso encontro, com o Seu Corpo e o Seu Sangue, com a Sua vida.

A Semana começa bem, começa com a entrada triunfal em Jerusalém. Parece um sonho. O sonho de Deus que nos faz sonhar, nos faz rejubilar. Depois de Jesus chamar a atenção para as dificuldades do caminho e para a possibilidade real de ser perseguido, julgado, condenado e morto, eis que uma multidão acompanha Jesus e entra com Ele em triunfo na cidade santa de Jerusalém, aclamando «Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!». À Sua passagem, a multidão dos seus discípulos estende capas, como que tornando mais macio o caminho, mas sobretudo em sinal de respeito, de carinho e reconhecimento. É o Rei que estava para vir. Vem num jumentinho, deixando entrever a originalidade deste Rei, pobre, despojado, sem armaduras, sem exército, sem adornos. Autêntico, Ele próprio, sem disfarces, sem guarda-costas!

 

2 – A segunda leitura faz-nos entrar na lógica de Jesus. A grandeza faz-se pobreza. A eternidade assume o tempo. A imortalidade converte-se em fragilidade e finitude. A glória traduz-se em serviço. A realeza percorre os caminhos da ternura, da compaixão e da misericórdia, do abaixamento, da obediência e do amor, do perdão, da proximidade e do serviço.

"Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai".

Neste pedaço de texto, está a vida toda de Jesus. A sua identidade com Deus desceu até nós, assumindo a nossa identidade humana, frágil, pecadora. Fez-Se obediência por nós, para nos remir, para nos elevar com Ele, santificando-nos.

 

 3 – A realeza de Jesus confunde-se com a do Servo Sofredor, descrito por Isaías. Tudo é predisposto a favor dos outros, as palavras e o silêncio, a escuta e a firmeza. "O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos".

Antes das palavras, a escuta. Para falarmos de Deus, temos que previamente O escutar. Somos chamados e enviados. "Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos".

A coerência entre a escuta, a profissão de fé e a vida, acarreta, por vezes, como aconteceu (acontecerá) com Jesus, a perseguição, a ofensa gratuita e a própria morte. "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam".

A certeza da comunhão com Deus, dá alento para enfrentar todas as ofensas e todo o sofrimento. Deus não deixará de nos socorrer. "O Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido".

 

4 – A semana começa bem para Jesus. E melhor ainda para aquela multidão de discípulos que O acompanham na entrada de Jerusalém. É pertinente o contributo de Bento XVI (Joseph Ratzinger) sobre esta passagem e que o texto deixa entrever. A multidão que hoje O acompanha não é exatamente a mesma que clamará pela Sua morte.

Com efeito, o primeiro texto mostra como alguns fariseus queriam que Jesus mandasse calar os Seus discípulos, sobressaindo que são eles que compõem esta primeira multidão, pessoas oriundas sobretudo da Galileia, gente pobre e humilde, gente devota que vem para celebrar a Páscoa e vislumbra em Jesus a resposta de Deus aos seus anseios e à sua fé.

Logo serão outros a pedir a cabeça de Jesus. Os discípulos perdem força. Entusiasmam-se quando estão rodeados dos que lhes são favoráveis e silenciam no momento em que são rodeados por adversários. Também nos acontece por vezes, muito fortes entre os nossos, frágeis em ambientes mais estranhos ou adversos.

Jesus não deixa de preparar os discípulos. Na Última Ceia, durante a qual acontece a primeira Eucaristia, Jesus antecipa a morte, mas também a Sua presença para sempre, de uma maneira nova. Isto é o Meu Corpo, entregue por vós. Isto é o Meu sangue, o Sangue da Nova Aliança. Disse-vos estas coisas, para que quando acontecerem, possais levantar a cabeça e o ânimo, pois a salvação chegou a vós. Vou preparar-vos um lugar para que onde Eu estou vós estejais também. Não temais, Eu venci o mundo. Fazei isto em memória de Mim. Estarei convosco até aos fim dos tempos!

 

5 – Vários os momentos e várias as lições. Nos momentos mais dramáticos da vida, a oração pode ser mais difícil. A de Jesus e a nossa oração. Pai, se é possível afasta de Mim este cálice. Mas faça-Se a Tua vontade e não a Minha. A oração faz-nos suplicar, para que o sofrimento não nos vença. A resignação é ativa, acolhendo e promovendo a vontade de Deus. A oração prepara-nos para o que está a chegar. Ainda que, em muitas situações, concluamos que afinal não estávamos tão bem preparados como julgávamos estar, tal é avalanche do sofrimento.

Os discípulos confrontam-se com o medo, com uma ansiedade extrema. Vacilam. Ficam bloqueados. E, segundo autores como Augusto Cury, adormecem, tal é o torpor em que caíram, estão extenuados pela aceleração dos acontecimentos. Mas Jesus, ainda assim não deixa de os desafiar e a nós também. Rezai. Vigiai para não cairdes em tentação. O caminho vai ser longo e vai ser duro. Não temais. Eu venci o mundo!

 

6 – Fazemos parte da Via-Sacra, estamos a caminhar com Jesus, de um a outro tribunal,rolex falsi assumindo uma e outra atitude: discípulos e curiosos; acusadores e juízes; mulheres e salteadores; bons e maus ladrões; Pilatos e Simão Cireneu e José de Arimateia; Judas e Pedro e discípulos amados. Maria e Verónica (segundo a tradição popular, a mulher que limpou o rosto de Jesus); fariseus e doutores da Lei; anónimos e amigos; fariseus e doutores da Lei, Anás e Caifás e Herodes!

Jesus vai-nos encontrando e vai-nos atraindo para Si. Cabe-nos responder. Aprendamos com Ele. Na bonança e na adversidade, Jesus mantém-se estreitamente ligado ao Pai. Faça-Se a Tua vontade. Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito, a minha vida.

A semana Santa interliga-se com esta opção. Jesus é o bendito que vem em nome do Senhor, a quem Se entrega e confia, no Jardim das Oliveira, no alto da Cruz. O Seu alimento é concretizar a vontade do Pai, prevalecendo o amor, o perdão e o serviço.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Lc 22, 14 – 23, 56.


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